Noite
À noite nem todos os gatos são pardos. Durante o dia sim, são mais pardos, mais cinzentos, mais estereotipados, mais semelhantes nos seus esgares e movimentos, na forma como observam a presa, como a arranham num ápice, ou a olham pachorrentamente à espera do dia certo e da hora certa para desferir o golpe.
Sempre me pareceu que o dia, por ter os minutos contados, bem pré - definidos e hierarquizados estava cheio de nada e vazio para o mais importante. Para tudo o que não pode ter hora marcada nem para começar, nem para acabar. Para o livro que quero ler até ao fim, sem dormir; para ouvir o barulho da tempestade no mar, do rebentar das ondas nos rochedos, sozinha, iluminada pelo lume que arde na lareira quente e crepitante; para o silêncio que me enche de paz; para o amor (que não o desamor semanal, das vinte e três às vinte e três e sete, vira para lá, dorme, anda…); para o jantar com amigos que se prolonga pela noite fora; para a partilha; para o dar e receber; para chorar e rir; para inventar a coragem de um outro amanhecer…
Ontem foi dia de S. João. Mas só a noite em mim ficou. A noite que estava serena com o rio belo e majestoso a recortar-se, ora escuro e misterioso, ora cheio de feixes de luz, contra a cidade antiga e granítica, ali, para os lados da ribeira, no Porto. Um barco de turismo movia audivelmente as águas espessas do rio. O cheiro a sardinha assada ainda pairava no ar e três ou quatro estrangeiros deliciavam-se com a mesma, conversando alto, numa esplanada, a desoras.
Mais adiante, do pequeno empedrado estreito que guarda fortes argolas que já prenderam muitas embarcações e lembranças, vê-se o rio, lá mais em baixo, sobre o qual se debruça o velho casario, donde, de um pequeno quarto, que parece ter escrito na janela, fim de vida, um homem, idoso, olhos vazios, olha em frente, sentado, de pijama às riscas, junto à janela aberta que, com a luz acesa, devassa tristemente o quarto impecavelmente arrumado e a cama semi - aberta que o espera.
Já no parque da Alfândega é a pesca que domina. Mas a beleza e a serenidade da noite mantêm-se. Cada homem solitário que pesca na noite faz-me pensar numa história de vida…
Sigo de carro na direcção do Castelo do Queijo, lentamente, porque, mais uma vez, a minha cidade acolhe-me e afaga -me no seu regaço e estes carinhos saboreiam-se devagar e também porque, grupos de populares dançam junto à rua e, por vezes, saiem a bailar para a frente dos carros, como aquelas duas mulheres que insistiam para que eu e a minha acompanhante saíssemos do carro e entrássemos na folia. Apesar de uma certa inviabilidade de pôr em prática o convite, confesso que só mo impediu a fila de carros que me seguia. Mas aquelas senhoras abriram um sorriso no meu rosto e na minha alma e naquele instante éramos todas da mesma irmandade, a das folgasãs.
E depois foi a vez do fado que atravessou a quietude do rio, mágico, nascido do nada, da escuridão, lá para as bandas do cais de Gaia, e que entrou dentro do carro que seguia devagarinho para a Foz, bateu em mim que não gosto muito de fado, e, enquanto aquela voz vibrante e sofrida me fazia lembrar os árabes na Península e todas as minhas origens, apertei a mão velhinha ao meu lado, sorri, voltei o rosto para o negrume onde pressentia o rio e os meus olhos encheram-se de lágrimas, e logo me lembrei da urgência de ir, uma destas noites, a uma tasca cheia de raça ouvir cantar o velho fado.
Sempre me pareceu que o dia, por ter os minutos contados, bem pré - definidos e hierarquizados estava cheio de nada e vazio para o mais importante. Para tudo o que não pode ter hora marcada nem para começar, nem para acabar. Para o livro que quero ler até ao fim, sem dormir; para ouvir o barulho da tempestade no mar, do rebentar das ondas nos rochedos, sozinha, iluminada pelo lume que arde na lareira quente e crepitante; para o silêncio que me enche de paz; para o amor (que não o desamor semanal, das vinte e três às vinte e três e sete, vira para lá, dorme, anda…); para o jantar com amigos que se prolonga pela noite fora; para a partilha; para o dar e receber; para chorar e rir; para inventar a coragem de um outro amanhecer…
Ontem foi dia de S. João. Mas só a noite em mim ficou. A noite que estava serena com o rio belo e majestoso a recortar-se, ora escuro e misterioso, ora cheio de feixes de luz, contra a cidade antiga e granítica, ali, para os lados da ribeira, no Porto. Um barco de turismo movia audivelmente as águas espessas do rio. O cheiro a sardinha assada ainda pairava no ar e três ou quatro estrangeiros deliciavam-se com a mesma, conversando alto, numa esplanada, a desoras.
Mais adiante, do pequeno empedrado estreito que guarda fortes argolas que já prenderam muitas embarcações e lembranças, vê-se o rio, lá mais em baixo, sobre o qual se debruça o velho casario, donde, de um pequeno quarto, que parece ter escrito na janela, fim de vida, um homem, idoso, olhos vazios, olha em frente, sentado, de pijama às riscas, junto à janela aberta que, com a luz acesa, devassa tristemente o quarto impecavelmente arrumado e a cama semi - aberta que o espera.
Já no parque da Alfândega é a pesca que domina. Mas a beleza e a serenidade da noite mantêm-se. Cada homem solitário que pesca na noite faz-me pensar numa história de vida…
Sigo de carro na direcção do Castelo do Queijo, lentamente, porque, mais uma vez, a minha cidade acolhe-me e afaga -me no seu regaço e estes carinhos saboreiam-se devagar e também porque, grupos de populares dançam junto à rua e, por vezes, saiem a bailar para a frente dos carros, como aquelas duas mulheres que insistiam para que eu e a minha acompanhante saíssemos do carro e entrássemos na folia. Apesar de uma certa inviabilidade de pôr em prática o convite, confesso que só mo impediu a fila de carros que me seguia. Mas aquelas senhoras abriram um sorriso no meu rosto e na minha alma e naquele instante éramos todas da mesma irmandade, a das folgasãs.
E depois foi a vez do fado que atravessou a quietude do rio, mágico, nascido do nada, da escuridão, lá para as bandas do cais de Gaia, e que entrou dentro do carro que seguia devagarinho para a Foz, bateu em mim que não gosto muito de fado, e, enquanto aquela voz vibrante e sofrida me fazia lembrar os árabes na Península e todas as minhas origens, apertei a mão velhinha ao meu lado, sorri, voltei o rosto para o negrume onde pressentia o rio e os meus olhos encheram-se de lágrimas, e logo me lembrei da urgência de ir, uma destas noites, a uma tasca cheia de raça ouvir cantar o velho fado.

7 Comments:
bem vinda. um beijo.
Bem vinda à blogosfera e obrigado pela tua visita e volta mais vezes Ali Ao Lado.
a-bordo obrigada por me trazeres a este mundo tão fixe.
filipe obrigrado por me teres lido.
Vou visitar-te mais vezes Ali ao Lado.
os teus textos são fabulosos. tens muito jeito para escrever.
continua assim...muitos beijos de alguém, que te adora.
morpheus,fico muito grata por gostares do que escrevo.Também gostei muito dos teus dois textos.O texto Saudade é de uma grande densidade emocional e até física, porque aos dois níveis sentes a aproximação do momento da mudança.
APARECE SEMPRE,MAS NA VERDADE NÃO IMAGINO QUEM POSSAS SER.
BEIJINHOS.
Enjoyed a lot! Side effects of viagra or cialis tadalafil
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