terça-feira, junho 28, 2005

Noite

À noite nem todos os gatos são pardos. Durante o dia sim, são mais pardos, mais cinzentos, mais estereotipados, mais semelhantes nos seus esgares e movimentos, na forma como observam a presa, como a arranham num ápice, ou a olham pachorrentamente à espera do dia certo e da hora certa para desferir o golpe.
Sempre me pareceu que o dia, por ter os minutos contados, bem pré - definidos e hierarquizados estava cheio de nada e vazio para o mais importante. Para tudo o que não pode ter hora marcada nem para começar, nem para acabar. Para o livro que quero ler até ao fim, sem dormir; para ouvir o barulho da tempestade no mar, do rebentar das ondas nos rochedos, sozinha, iluminada pelo lume que arde na lareira quente e crepitante; para o silêncio que me enche de paz; para o amor (que não o desamor semanal, das vinte e três às vinte e três e sete, vira para lá, dorme, anda…); para o jantar com amigos que se prolonga pela noite fora; para a partilha; para o dar e receber; para chorar e rir; para inventar a coragem de um outro amanhecer…
Ontem foi dia de S. João. Mas só a noite em mim ficou. A noite que estava serena com o rio belo e majestoso a recortar-se, ora escuro e misterioso, ora cheio de feixes de luz, contra a cidade antiga e granítica, ali, para os lados da ribeira, no Porto. Um barco de turismo movia audivelmente as águas espessas do rio. O cheiro a sardinha assada ainda pairava no ar e três ou quatro estrangeiros deliciavam-se com a mesma, conversando alto, numa esplanada, a desoras.
Mais adiante, do pequeno empedrado estreito que guarda fortes argolas que já prenderam muitas embarcações e lembranças, vê-se o rio, lá mais em baixo, sobre o qual se debruça o velho casario, donde, de um pequeno quarto, que parece ter escrito na janela, fim de vida, um homem, idoso, olhos vazios, olha em frente, sentado, de pijama às riscas, junto à janela aberta que, com a luz acesa, devassa tristemente o quarto impecavelmente arrumado e a cama semi - aberta que o espera.
Já no parque da Alfândega é a pesca que domina. Mas a beleza e a serenidade da noite mantêm-se. Cada homem solitário que pesca na noite faz-me pensar numa história de vida…
Sigo de carro na direcção do Castelo do Queijo, lentamente, porque, mais uma vez, a minha cidade acolhe-me e afaga -me no seu regaço e estes carinhos saboreiam-se devagar e também porque, grupos de populares dançam junto à rua e, por vezes, saiem a bailar para a frente dos carros, como aquelas duas mulheres que insistiam para que eu e a minha acompanhante saíssemos do carro e entrássemos na folia. Apesar de uma certa inviabilidade de pôr em prática o convite, confesso que só mo impediu a fila de carros que me seguia. Mas aquelas senhoras abriram um sorriso no meu rosto e na minha alma e naquele instante éramos todas da mesma irmandade, a das folgasãs.
E depois foi a vez do fado que atravessou a quietude do rio, mágico, nascido do nada, da escuridão, lá para as bandas do cais de Gaia, e que entrou dentro do carro que seguia devagarinho para a Foz, bateu em mim que não gosto muito de fado, e, enquanto aquela voz vibrante e sofrida me fazia lembrar os árabes na Península e todas as minhas origens, apertei a mão velhinha ao meu lado, sorri, voltei o rosto para o negrume onde pressentia o rio e os meus olhos encheram-se de lágrimas, e logo me lembrei da urgência de ir, uma destas noites, a uma tasca cheia de raça ouvir cantar o velho fado.

7 Comments:

Blogger a-bordo said...

bem vinda. um beijo.

9:51 da tarde  
Blogger Filipe Spinner said...

Bem vinda à blogosfera e obrigado pela tua visita e volta mais vezes Ali Ao Lado.

10:14 da tarde  
Blogger dhuoda said...

a-bordo obrigada por me trazeres a este mundo tão fixe.

11:53 da manhã  
Blogger dhuoda said...

filipe obrigrado por me teres lido.
Vou visitar-te mais vezes Ali ao Lado.

11:56 da manhã  
Blogger Morpheus said...

os teus textos são fabulosos. tens muito jeito para escrever.
continua assim...muitos beijos de alguém, que te adora.

3:18 da tarde  
Blogger dhuoda said...

morpheus,fico muito grata por gostares do que escrevo.Também gostei muito dos teus dois textos.O texto Saudade é de uma grande densidade emocional e até física, porque aos dois níveis sentes a aproximação do momento da mudança.
APARECE SEMPRE,MAS NA VERDADE NÃO IMAGINO QUEM POSSAS SER.
BEIJINHOS.

3:45 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Enjoyed a lot! Side effects of viagra or cialis tadalafil

1:28 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home