sábado, julho 02, 2005

Gabriel

O Gabriel tem vinte e quatro semanas. É o meu primeiro neto e amo-o. Amo-o na barriga da minha filha onde nunca o vi empinar-se nem o senti estremecer, onde ainda não tive possibilidade de o afagar e de sussurrar baixinho o nome dele, Gabriel.
É bonito o nome do meu neto, faz-me pensar em naus e caravelas, num homem de largos horizontes, num estudioso, num pensador, num homem bom e justo, e honesto e simples.
Mas os meninos, como o meu Gabriel, e todos os outros, nascem em contextos pré- configurados. Uns em guetos, outros em famílias ditas normais, outros em famílias disfuncionais, uns num casamento, outros numa união de facto, outros de produção independente, etc, etc, etc.
O meu Gabriel que já tem tudo, mãe, não precisa de nada. Até tem dois avôs e duas avós e uma de sobra, que sou eu própria.
E o meu Gabriel, em potência, que eu amo, como se fosse aqui e agora, em acto, trouxe com ele um dilema:
Ou vou recebê-lo à chegada a este mundo e ao pegar nele ao colo hei-de prometer-lhe que vou partilhar das suas alegrias e dores, vou contar-lhe histórias, brincar com ele, ler-lhe livros, mostrar-lhe e ensinar-lhe tudo o que sei; mas esta minha opção trará, sei-o sobejamente, humilhações, faltas de respeito, dor, e implicará dar o flanco a algumas pessoas que, no passado, só me fizeram mal.
Ou, a outra opção que o meu dilema me oferece, é continuar tranquilamente a minha vidinha, escrever, ler, trabalhar e acreditar que, malgré tudo, tudo, tudo, estou viva, sou eu própria, e, quem sabe, talvez um dia, ou noite, tu estejas lá, não sei onde, nem quando, nem como, mas ainda acredito, e então, pode ser que o caminho faça todo o sentido. No dia do parto enviarei flores à minha filha, e bombons, uma linda prenda para o meu neto e esperarei os convites para aparecer que sei que não virão e, não conhecendo o Gabriel, proteger-me-ei de novos sofrimentos; mas sei bem quanto esta minha opção, embora sendo a que me preserva, é cobarde, e priva-me do meu neto para sempre e o priva-o a ele, que nem sequer foi ouvido, da sua única avó materna.
Que fazer?

5 Comments:

Anonymous IF said...

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1:45 da manhã  
Anonymous IF said...

ir vê-lo à maternidade, levar as flores e a prenda e esperar que a vida lhe permita dar ao Gabriel o melhor que a avó tem para lhe dar... Porque, felizmente, o futuro nos reservará muitas surpresas e há que acreditar que amanhã será, certamente, diferente de hoje... até porque temos um papel a cumprir e ninguém pode substituir-nos, muito menos no de avó materna

1:48 da manhã  
Blogger Morpheus said...

Compreendo a dor que deves sentir á grande e incomoda rejeição dos filhos. Á sempre desses conflitos… Está escrito que em todas as histórias entre mãe e filhos tem de haver sempre conflitos independentemente dos cuidados que tomamos como definidos. Tem calma, vai ter com o teu neto, não tenhas medo do que possa vir. Já agora, parabéns por seres avó!!! Beijinhos

3:39 da tarde  
Blogger dhuoda said...

If,obrigada pela ajuda na solução do meu querido dilema.Obrigada ainda pela forma gentil como o soube abordar e pelas palavras de esperança e coragem.

3:22 da manhã  
Blogger dhuoda said...

morpheus,"Tem calma, vai ter com o teu neto, não tenhas medo do que possa vir." Estas palavras foram-me muito gratas,porque
identificaram claramente o problema.
Obrigada e beijinhos.

3:30 da manhã  

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