segunda-feira, julho 04, 2005

O SILVEIRA

A minha amiga conheceu o Silveira num daqueles chats meio desinteressantes que proliferam na Net. A Joana é óptima a meter conversa com desconhecidos, conhece tudo o que é sinalética de chats e gosta de matar os momentos de solidão a falar para o escuro. Os amigos, fartinhos de lhe conhecer a tentação, avisaram-na, vezes sem conta, dos perigos, dos mais prováveis aos mais impensáveis, dos mentirosos, dos casados que se fingem divorciados ou solteiros, dos que só querem uma oportunidade mínima para ter sexo, dos tarados, dos violentos, dos homicidas, dos ladrões, dos que têm sida e procuram vingança em inocentes, etc, etc, etc. A Joana, muito loura, alta, bonita, brilhante magistrada, semicerrou os lindíssimos olhos azuis e, do alto da sua experiência de quarentona bem vivida disse: Este é só um administrativo, separado (faz ele questão de dizer), pai extremoso de uma adolescente e até, ainda não parece ter esquecido a ex.
Afinal, o Silveira revelou-se um homem muito inteligente, o que nada tinha a ver com o seu décimo primeiro ano incompleto, e em nada, dizia a minha amiga, parecia ser incompatível com o ilustre doutoramento dela.
Durante vários meses, após o primeiro encontro, trocaram confidências, falaram horas a fio, saíram juntos,e os amigos já questionavam, Então, afinal este saiu boa gente? Mas, ela desabafava comigo, amiga desde o liceu, Este tipo gosta de mim, porra, mas esconde-me alguma coisa. E, naquela noite, em que, mais uma vez, ela chegou de Lisboa e, à noite, no Porto, no acolhedor hotel onde ela ficava sempre, depois do jantar e do amor, ele a enrolou no lençol, para que não tivesse frio, e, com a cabeça dela pousada sobre o peito forte e meigo, a abraçou docemente, ela sentiu que tinha encontrado o seu homem. E, depois, mergulhando nas memórias, ele contou-lhe do seu nascimento em Miranda do Douro, da infância vivida ao sabor das barragens que o pai ia ajudando a construir; das casinhas de madeira onde foi crescendo, da mãe, do pai, dos amigos, das brincadeiras no Verão, em cabanas que construíam no meio do monte, de todo o Verão se recordar de usar calções de fazenda e chinelos de meter o dedo…
E a Joana a telefonar-me depois, uma semana após. Ele dissera-lhe que era melhor não se verem mais, que não ia dar certo.